A formação de julgamento sob IA virou rotina, não projeto de RH
A Teikametrics trocou a prova técnica da entrevista por outra pergunta, mas não decidiu como formar julgamento sob IA: decidiu revisar isso sem parar.
Em 29 de setembro, o HR Dive publicou, a partir do CFO.com, uma reportagem de Adam Zaki sobre como CFOs de empresas médias estão repensando a formação de talento agora que ferramentas de IA fazem o trabalho que antes cabia ao analista júnior. Brian Beaupre, CFO da Teikametrics, disse na Conferência de Primavera do CFO Leadership Council, em junho: “o que essas ferramentas de IA fazem hoje é literalmente o que eu fiz nos primeiros dez anos da minha carreira.” Ele mudou o que a entrevista de estágio testa e passou a investir em treinar quem já está dentro da empresa. Jeff Seibert, cofundador da Digits, e Blake Oliver, apresentador do podcast The Accounting Podcast, discutem o mesmo dilema citando pesquisa da Personiv: contador sênior é hoje o cargo mais difícil de preencher no setor financeiro.
A leitura óbvia já circula, inclusive por aqui: a IA está cortando a vaga júnior, e isso seca a fonte de onde viria o sênior de daqui a dez anos. É um argumento correto. Também é um argumento que descreve o risco e para aí, como se nomear o problema já fosse ter feito alguma coisa a respeito dele.
O que separa a Teikametrics de quem só repete o alarme não é ter uma resposta pronta. É tratar a resposta como algo que se revisa, não como algo que se decide uma vez.
O que saiu da entrevista quando a prova técnica não bastava mais
Beaupre reduziu o tempo de entrevista gasto testando proficiência técnica, algo que a IA já cobre depois de dez anos em que ele mesmo construiu modelos financeiros manualmente, e passou a perguntar sobre adversidade: um problema real que o candidato enfrentou, e como ele reage ao próprio erro. “Como alguém conta essa história, e quanto de autoconsciência e honestidade aparece sobre o que deu errado no caminho, me diz muito mais sobre o teto dessa pessoa do que qualquer prova técnica diria”, afirmou.
A mudança tem uma lógica direta: se a IA já produz o resultado técnico, testar o resultado técnico deixou de discriminar quem vai virar sênior. O que resta para observar é o processo mental de quem errou e teve que consertar — porque é esse processo, e não o output, que a ferramenta não reproduz.
| A leitura óbvia | O que a Teikametrics mudou |
|---|---|
| Cortar a vaga júnior é a resposta ao avanço da IA | A vaga continua, mas o que ela testa mudou |
| Formar gente é um programa de treinamento com início e fim | É treino individual, recalibrado por funcionário |
| O risco está na tarefa que a IA assumiu | O risco está no músculo que deixa de ser exercitado |
O emparelhamento que substitui o rito de passagem
Na Teikametrics, funcionários com anos de processo interno são deliberadamente pareados com contratados recentes, mais fluentes em IA. Um ensina o outro, e o par se refaz conforme a equipe muda. Não existe versão final desse arranjo: alguém precisa de prática repetida, outro aprende melhor vendo a IA aplicada a um problema que já domina, e ajustar isso é trabalho contínuo, não um manual entregue uma vez no primeiro mês.
É esse detalhe que separa jardinagem de projeto: a Teikametrics não decidiu como vai formar júnior sob IA. Decidiu revisar como está formando, e seguir revisando.
Beaupre é o primeiro a admitir que isso não resolve o problema de fundo. “O que de fato me tira o sono é algo anterior a isso: o risco de que apoiar-se demais em IA cedo demais na carreira erode o músculo de pensamento crítico que só se constrói lutando com um problema”, disse.
“Essa luta é de onde vem o julgamento, e julgamento é exatamente o que não dá para automatizar.”
Nenhum rearranjo de entrevista ou de par de trabalho garante que esse músculo se forme. O que Beaupre está fazendo é testar e ajustar, sem saber ainda se funciona, e sabendo que vai ter que saber em alguns anos, quando esses juniores precisarem assumir decisões que hoje ninguém mais pratica.
Por que contratar sênior não resolve o problema que a IA criou
A pesquisa da Personiv que Oliver cita no podcast já mostra a saída fechada: contador sênior é o cargo mais difícil de preencher no setor, contratação para recém-formados segue estável enquanto cai para muitos outros cargos de colarinho branco. Se toda empresa decidir parar de formar júnior e comprar sênior pronto quando precisar, todas vão competir pelo mesmo estoque, que já é curto. Formar internamente deixa de ser opção de RH e vira decisão de abastecimento, no mesmo sentido em que uma indústria decide não depender só de fornecedor externo para uma peça crítica.
Uma empresa que trata essa formação como ajuste de política, mudar o texto da vaga e cortar a entrevista técnica, resolveu a pergunta errada. A pergunta certa é operacional e recorrente: quem revisa, a cada poucos meses, se o júnior que está sendo formado hoje está de fato desenvolvendo julgamento, ou só aprendendo a operar a ferramenta mais rápido? Dar dono a essa revisão, com data marcada no calendário do RH e do CFO juntos, é a diferença entre um regime que se ajusta e uma decisão que se toma uma vez e se esquece.
Há ainda um problema que nenhum rearranjo de entrevista resolve: contador júnior está saindo da profissão depois de poucos anos, segundo o mesmo debate que Oliver traz ao ar.
Formar julgamento leva tempo.
Se quem está sendo formado sai antes de precisar aplicá-lo em decisão real, o investimento em treino nunca chega a virar sênior — vira apenas rotatividade mais cara. Ligar a decisão de retenção à decisão de treino, e não tratá-las como duas áreas de RH que não se falam, é a implicação que menos aparece nesse debate e a que mais decide se o esforço vale.
Que critério a sua empresa usa hoje para saber se um estagiário ou trainee está desenvolvendo julgamento — e há quanto tempo ninguém revisa esse critério?
Perguntas frequentes
Isso vale para empresa que não é de contabilidade ou finanças?
Vale para qualquer área onde o trabalho júnior era, na prática, o treino do sênior: direito, programação, análise de dados. Trocar a prova técnica por avaliação de julgamento e criar pares fixos entre veterano e novato não depende do setor. Depende de haver, hoje, tarefa júnior que a IA já cobre inteira, sem sobrar o que testar no candidato.
Quanto tempo até isso importar para uma empresa pequena, sem RH estruturado?
Menos do que parece. Dono de operação pequena já entrevista e já decide quem treina quem, então a mudança cabe numa conversa, não num programa formal. O risco é o oposto: parecer pequena demais para virar rotina, e por isso nunca ser revisada, até a primeira vez que faltar alguém que saiba decidir sozinho.
O pareamento entre veterano e novato substitui um programa formal de treinamento?
Não sozinho. É o mecanismo que repete, todo dia, o que antes acontecia pelo acúmulo de tarefa manual: ver alguém mais experiente errar, corrigir e explicar o motivo. Um programa formal ensina processo. O par ensina o julgamento em tempo real, que é exatamente o que a Teikametrics identificou como o que a IA ainda não reproduz.
Fonte analisada: If AI takes on junior-level work, how will CFOs develop talent? — HR Dive
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